A dificuldade de se lidar com emoções
(Falar do número) Dois:
E no dois o homem luta entre coisas diferentes,
Bem e mal, amor e guerra, preto e branco, bicho e gente
Rico e pobre, claro e escuro, noite e dia, corpo e mente.(Raul Seixas - trecho da música Os Números)
A concepção dualista dos aspectos de nossa vida foi definitivamente lançada por Descartes, filósofo do séc. XVII. Ele é quem falou "Penso, logo existo" (Cogito ergo sum, em latim), demarcando a nítida separação entre um mundo mental e um mundo externo. Sua filosofia deu base para toda a concepção mecanicista da natureza trazida por Newton e para a visão que prevalece desde então no mundo moderno (o mundo-máquina).
Com o Cogito, o racionalismo cartesiano nos implicou a separatividade entre os opostos - como mostra a música de Raul Seixas - e hoje parece praticamente impossível pensar de maneira diferente daquela trazida por Descartes: uma coisa é preta OU é branca, está fora OU está dentro, é certa OU é errada. Do mesmo modo, contrapõem-se conceitos como bem/mal, corpo/mente, razão/emoção, nunca podendo esses conceitos compartilhar o mesmo espaço (Descartes foi um geômetra).
Muitas pessoas queixam-se da dificuldade de lidar com o par razão/emoção. Amarrados ao raciocínio cartesiano, não nos é permitido navegar pelos dois conceitos ao mesmo tempo: ou você é racional ou é emocional. "Não tente racionalizar suas emoções", alguns sugerem; "não é momento para ser emotivo", outros aconselham. É consenso que um não pode invadir o território do outro. Daí, vivemos em constante impasse, como alvo fácil de psicanalistas.
Penso que a dificuldade de se lidar com emoções tem sua raiz justamente na abordagem fragmentada do mundo. Ao decompor a mente em dois universos (razão e emoção), com fronteira bem demarcada, limitamos nossa visão do todo. Ora, razão e emoção fazem parte de um só e mesmo conjunto: o indivíduo. Dessa separatividade é que advém a angústia, porque gostaríamos, em realidade, de entender a totalidade que cada um de nós é.
Vejamos o diagrama do Taiji aí ao lado (Yin e Yang). Os opostos estão integrados, na medida que estão dentro de um círculo. Cada oposto contém a essência de sua contraparte (a pequena bolinha dentro de cada lado). A forma desse diagrama nos ajuda a entender que, em verdade, os opostos não são contraditórios, mas sim complementares (Foi isso que Descartes não enxergou!). Assim, numa visão sistêmica, trata-se não de contrapor razão e emoção, mas de procurar entender, de modo abrangente, como as duas forças se relacionam. Todo pensamento racional tem sua carga emocional, assim como toda manifestação emocional contém elementos de racionalidade.
Entender opostos como complementares parece ser um dos caminhos para que desenvolvamos a visão sistêmica da vida, para, com ela, entender o fluxo contínuo e o equilíbrio entre nossas razões e emoções.
agosto 8th, 2007 - 12:11
Um dia eu aprendo isso. Por hora, o olho do furacão é lugar mais confortável. Libriana, né?
agosto 8th, 2007 - 14:40
Realmente não existem opostos e sim complementos. Se achamos que uma coisa é branca é porque em algum momento anterior cogitamos a possibilidade da mesma ser preta. Não há razão sem emoção e vice-versa. Tudo baseia-se na quantidade que se sobrepõe e nos atinge em determinado momento…
agosto 10th, 2007 - 12:51
Ótimo post!!! Só poderia ser do filósofo Demberg…
agosto 10th, 2007 - 16:44
Razão e emoção não são antagônicos. Só que há uma relação de competição entre eles. Como se fossem irreconciliáveis. Eu, por exemplo, vejo-os como duas faces inseparáveis de uma moeda. Mas, infelizmente, nem sempre em perfeita harmonia. Um sempre se sobrepõe ao outro, chegando até mesmo a anular.
agosto 10th, 2007 - 16:54
Lembrei do filme “O Homem Bicentenário”, baseado no romance de Isaac Asimov. Nele, o robô, interpretado Robin Williams, busca ser mais humano, ter emoções. Mas muitas pessoas tentam mostrar que possuir emoções atrapalha o uso lógico da máquina. E ele encara esse caminho (dois séculos) como a busca da sua liberdade.
agosto 17th, 2007 - 19:00
Nunca fui sistêmica, sempre fui muito emocional. Hoje aprendi a ter um equilibrio maior entre a razão e a emoção e continuo sempre aprendendo mais. Acho que um complemente o outro, como o taiji, cada oposto contém a essência de sua contraparte.
Adorei o seu blog, parececom você Demberg.
outubro 2nd, 2007 - 08:53
Algumas pessoas realçaram nos comentários acima o conflito razão x emoção e o seu próprio esforço em não deixar que um sobrepuje o outro.
Enxergar a competição entre eles, e tentar controlar os dois aspectos, é vê-los pelo olhar da separatividade. Tentar ser mais emocional ou tentar ser mais racional, em qualquer que seja o momento, é esforço da visão de separatividade, que só entende a disputa “a mente X o coração”.
A visão sistêmica não percebe concorrência, mas complementaridade. Não é mente “versus” coração ou coração “versus” mente.
Em vez de atentar para o conflito aparente entre os dois aspectos (e se angustiar com isso!), conflito esse que é um mero efeito de superfície, observemos o equilíbrio dinâmico e natural subjacente à vida:
“Tendo yang atingido seu clímax, retira-se em favor do yin; tendo o yin atingido seu clímax, retira-se em favor do yang”.
agosto 6th, 2010 - 21:41
Adoro ter amigos como vc Dembe, inteligente e ponderado. Em busca do equilibrio, do bom senso, ha de se aceitar os dois lados. E muitas vezes a carga de razao ta recheada de emocao e vice versa ! Uma cerveja no boteco e papo pra horassssss !
março 30th, 2011 - 13:58
Essa linha de pensamento me faz lembrar do Nietszche, em “Além do Bem e do Mal”: ele também mencionava não existirem pólos opostos, e sim “degraus diferentes de uma escada”.
Embora essa analogia não seja perfeita, acredito que ele foi um dos primeiros expoentes a manifestar a visão sistêmica de mundo, em sua marcha contra ídolos e deuses!